Descriminalizem os sonhos!

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É difícil viver num mundo onde os sonhos não valem nada. Viver a cada dia sabendo que o teu amanhã não é o futuro que esperam pra ti é realmente angustiante. A cada passo, uma critica, e a cada parada, uma cobrança. Não saber pra onde ir, mas não ter tempo pra parar, e não ter a quem perguntar, é terrível.
Existe um mercado escravagista escondido sob os panos de uma bela e justa democracia capitalista, cuja demanda é sanguinária de um publico sedento por conhecimentos, honras, méritos e títulos. Desses, eu só quis o conhecimento. E por isso, por não querer tudo o que nos é demandado, sofremos uma crucificação velada, invisível, mas que pode ser sentida – e como é dolorosa.
Em meio a esses espinhos, somos obrigados e incentivados a caminhar – e por anos, eu aceitei caminhar. Depois de cada longo dia, tinha em casa o meu refúgio. Mas a compreensão acabou, aqueles méritos que pra mim era motivo de alegria e exultação, aos outros tornou-se perda de tempo, brincadeira. Não existe mais louvor à iniciativa de se lançar em algo novo. Na verdade, cada vez menos a novidade pessoal é aceita. Queremos novas noticias, novos filmes e eletrônicos, mas velhas pessoas. A inovação é artigo raro e pouco desejado. Contudo, ainda existe uma falsa inovação – e essa, sim, é coroada com honras – que ainda é muito procurada: a novidade dentro do padrão. O nosso padrão de pensamento, muitas vezes hipócrita e engessado, tem um espaço onde é permitido criar. Pena que o limite do aceitável seja tão curto. Criar algo que não muda nada é aceitável. Inovar com atitudes pouco conhecidas, torna-se um problema.
Com essa conclusão, decidi sair, e percebi que não o mundo que não da nada pelos nossos sonhos. O mundo nos da os nossos sonhos. O que acontece é que a sociedade desaprendeu a sonhar, e chegamos em um ponto que, além de ser difícil, sonhar é proibido. Prendam-no! Cortem-lhe a cabeça! Lancem na fogueira! Digam que seus sonhos são utópicos! E assim se vai toda a nossa esperança de um mundo melhor.
Sabe, agora eu tenho mais um sonho, e nem adianta tentar me dizer que ele é só um sonho, porque um dia será realidade. Eu sonho com a descriminalização do sonho. Sim, ter objetivos próprios, e não objetivos comuns, ainda vai ser moda! Algum dia, quando nem todas as crianças disserem que querem se formar na faculdade e ganhar dinheiro, quando os adolescentes ainda sonharem em ser astronautas, professores ou cientistas, e quando constituir família voltar a ser um sonho, ai então, olharão pra trás e lembrarão desse pobre vagabundo que largou tudo por um sonho.

Minha revolução

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Sempre esperei uma revolução. Sim, eu sei, essa não é uma frase que se ouve todo dia. Mas era isso mesmo: eu esperava que um dia desses ia surgir um grupo de pessoas revoltado com a situação – revoltado com o governo, com o preço da passagem de ônibus e do Kinder Ovo, enfim, revoltados com esse mundo insano. Nessa hora, então, seria feito o rascunho de um país melhor. Porque depois de estudar e analisar os acontecimentos, decidi que não éramos nem o rascunho de algo que poderia dar certo.
Pra que a vida dos brasileiros fosse melhor, era necessário que alguém se preocupasse realmente com ela. Indo um pouquinho mais adiante, era necessário que alguém com plenos poderes de mudança se importasse com a vida desses brasileiros. Os poderes de mudança, teoricamente, estão nas mãos do cidadão que é eleitor e cumpre os seus deveres. Na prática, está sob posse daquele cidadão que é eleito e que costuma não cumprir os seus deveres. Por isso, cheguei a conclusão de que não ia ser com um ou dois bons políticos que mudaríamos uma nação. Chegamos, então, na revolução a que eu me referia.
Nessa tal revolução que eu sonhava, a corja, que hoje não faz questão nem de fingir que trabalha e nem de fingir que não rouba, seria retirada – à força, se necessário – do poder. Ai então, teríamos nos possíveis líderes dessa revolta, novos políticos, em quantidade menor que a atual, para representar-nos em outras instâncias. Nada de deputados federais, senadores, deputados estaduais, vereadores, e cada um com suas dezenas e centenas de funcionários e despesas. Chegaríamos, enfim, depois de um período turbulento – no qual faríamos o necessário para alcançar o objetivo, custe o que custasse, em um período completamente novo. É, eu pensava assim…
Ainda acho que essa “nova era” vai chegar. Ela tem que chegar. Mas a massificação do pensamento já avançou a tal ponto que a ideia de uma revolução foi rechaçada. Ou melhor, a ideia de um revolução armada, de uma revolta popular. Porque agora o que ocupa meus pensamentos e se delicia da minha imaginação é outra revolução: a revolução pessoal. Essa revolução, sim, ainda é possível, e terá êxito, e para ela, não serão necessários os dois parágrafos de que precisei pra explicar meu antigo sonho. Na verdade, para entender essa revolução, basta saber que a nossa mudança deve ser a primeira mudança do mundo. A partir do resultado da nossa mudança, da nossa própria revolução, que se mostra no nosso cotidiano, vamos cativar o mundo todo e convidar as pessoas pra essa nova revolta. Essa, sim, fará não um país melhor, mas uma sociedade nova.

Nada

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Era noite alta. A luz dos postes iluminava fracamente a calçada onde eu caminhava. Sozinho, como sempre. Violão e mochila nas costas, coração apertado e a mente viajando longe. Ao meu lado, alguém caminhava. Chegou sem que eu percebesse, mas em perfeita sincronia, caminhava comigo. Parei para encara-lo, e dei-me de frente com uma grande e reluzente vitrine. Ali, um homem me olhava. Era comum: cabelos negros, meia altura, um roupa um pouco gasta, porém bonita e elegante. Era familiar. Na verdade, era incômodamente familiar. Sim, era incômodo, e graças aqueles olhos verdes tristes. Profundos e tristes olhos verdes. Profundos, tristes e conhecidos. Na tristeza daqueles olhos reconheci-me. Era eu aquele homem que me olhava no reflexo da vitrine. Mas aqueles olhos não podiam ser os meus. E aquela barba? Envelheci dez anos em dez meses…
Quando deixei de me conhecer? Se pudesse enxergar, provavelmente não reconheceria sequer o meu coração. Na verdade, a unica coisa que resta dele são as cicatrizes. Assim como de mim, só resta o verde dos olhos. Os cabelos negros agora são opacos. A velha postura altiva e elegante deu lugar somente a uma cansada postura velha. E a tristeza. Ah, a tristeza não se exprimia somente na falta do sorriso. Ela se espalhava pela pele, tomava os olhos e neles tornava-se um outdoor para o mundo.
Naquele homem, os amores haviam sido cruéis. Sim, em mim os amores foram cruéis. E dessa crueldade nasceu esse homem errante, que, nos seus melhores dias, sequer consegue reconhecer o proprio reflexo. Esse homem, que nos seus encontros e desencontros deu aos amigos as suas alegrias, também deixou com eles um pouco de tristeza, tornando-se pouco a pouco o vazio ambulante que hoje descobriu ser. Os anos passam, mas pra quem não é nada, nada muda.

A moça e os rapazes

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Alguns diriam que se conheceram por acaso, mas não seria tão perfeito esse tal acaso. Os dois rapazes se conheciam desde sempre. Nem lembravam do primeiro encontro. Simplesmente viveram juntos toda a vida. Já a mocinha veio anos depois. De fato, conheceram-se de uma forma como quase todo mundo se conhece: amigos em comum. E depois de se conhecer, os amigos em comum continuaram os mesmo. A vida continuou a mesma, assim como os sonhos, tristezas e responsabilidades. Cada um dos três ja tinha vivido mais de uma década de alegrias e amarguras sem os outros dois. E dessa forma, mesmo ja tendo os três se conhecido, viveram ainda mais algum tempo as suas próprias individualidades.
Em um dado momento – um final de semana qualquer – se reuniram. Não era nada de mais. Reuniram-se para concluir tarefas simples. Não que um esperasse encontrar ou trabalhar com o outro. Simplesmente aconteceu. Mas esses rapazes e a moça sabiam fazer do trabalho a diversão, e da diversão, faziam uma vida. E ali, fizeram o seu trabalho, mas também refizeram a vida. Naquele fim de semana eles conversaram como irmãos, se amaram como familia e conviveram como velhos amigos. E também o fizeram no dia seguinte, e no fim de semana seguinte, e no outro, e no outro. Não era sangue, não era paixão, apesar de haver ali sangue e paixão, o que os unia. Era simplesmente o prazer de estar junto. Sim, pela primeira vez, experimentavam a verdadeira saudade da companhia, o prazer de estar com alguém.
Ninguém sabia o porque, nem mesmo eles, mas pouco a pouco, o mundo foi se transformando ao seu redor. Até aqueles amigos tão distantes, e mesmo os inimigos, se sentiam mais felizes, e feito o toque de Midas, a moça e os dois rapazes tranformavam tudo ao seu redor, não em ouro, mas em amor fraterno, em compaixão e alegria, pura e simples. Desse toque alegre e modificador, firmaram um laço material que tornava visivel o laço emocional. Uma pulseira cor de cobre com um pingente de âncora os identificava. A âncora os mantinha com os pés no chão, porque, quando juntos, o coração voava livremente. E através desse símbolo, souberam que seriam firmes, eternos, tal qual a âncora que mantém sempre o barco no lugar certo. E fizeram desse lugar certo o seu lar, e mais do que nunca, tudo ao seu redor se modificava. Foram luz em meio a escuridão, e mostraram ao mundo o poder da amizade.

Debaixo das cobertas, a menininha se encolheu. Depois de um leve bocejo, perguntou a avó:
– Será que um dia eu vou ter amigos assim, vó? Ou será que isso é só um conto de fadas?
– Quem sabe, minha pequena? Quem sabe…
A avó então deu-lhe um beijo na testa, ajeitou as cobertas, e foi até a porta. Apagou a luz enquanto uma pequena âncora pendurada à sua pulseira chacoalhava com o mesmo brilho de outrora.

Fui vencido

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A pontada acusa o golpe:
É ele que está de volta

Sorrateiro, atravessa os sorrisos
Venenoso, lança o seu mal
Maldoso, planta a raiva
Esperto, te presenteia com a intolerância
Incisivo, faz-te ignorante

Parabéns!
O ciúme já conseguiu te vencer.

Só e mal acompanhado

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Outra noite sem fim, sem pé, nem cabeça. Era outra daquelas noites modorrentas em que os minutos duram horas, e as horas demoram tanto que nem a paciência consegue acompanha-las. Na rua tudo era frio e escuro. Somente frio e escuro. O vento não ventava, a chuva não chovia e as estrelas não brilhavam. Como que numa traquinagem infantil, a lua também se escondera para deixar aquela escuridão ainda mais escura, e aquele tédio ainda mais tedioso.

Como já era costume nessas noites intermináveis, as teclas foram digitadas frenética e incessantemente. Dezenas, centenas, milhares de “clic clic” e “toc toc” foram ouvidos desse teclado, mas na tela, a página continuava em branco. Não conseguia sequer conversar consigo mesmo. Na verdade, talvez esse fosse o grande motivo do tédio. Afinal, o que é melhor pra combater o tédio que uma boa companhia? Bom, realmente não era boa companhia. Dissessem o que dissessem, chegou a essa conclusão: não conseguia distrair nem a sí mesmo, que diria ser capaz de alegrar os outros.

As lembranças vieram nítidas na mente, e cada situação agora era vista por esse novo prisma: ele era uma péssima companhia. Claro, isso explica os inúmeros silêncios no elevador com os seus vizinhos de porta, e explica também os foras que já havia levado. Na verdade, explica até os foras que ele sequer conseguira levar, porque de tão péssima companhia, não conseguiu nem chegar ao ponto. Era por isso que nos momentos a sós com os melhores amigos, ele só ouvia, e quando ninguém abria a boca, ele era mais um a permanecer calado. Agora cada situação desagradável de sua vida fazia todo o sentido. E naquele ponto tudo convergia: ele não era boa companhia nem pra sí mesmo.

De lembrança em lembrança, a noite passou numa piscar de olhos. Talvez ele não fosse tão má companhia assim.

Não-história de um quase amor

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Ela tinha 19 anos e cursava publicidade e propaganda. Ele estava prestes a se formar em jornalismo. Todos os domingos, ela e as amigas tomavam chimarrão na praça em frente a sua casa. Ele andava de bicicleta na Terceira Perimetral. Ele ouvia todos os dias os albuns dos Engenheiros do Hawaii. Ela tocava os solos de gaita de 3×4 e sabia de cor todas as músicas do Novos Horizontes no violão. Ela também era viciada em gibis e animes. Já ele, desenhava os personagens de Dragon Ball, Cavaleiros do Zodiaco e Naruto com perfeição.

Aos 15 anos ele jogava futebol depois do colégio numa praça ali perto. No mesmo ano, ela se mudou pra um apartamento aconchegante na frente de uma praça onde uma gurizada sempre jogava futebol depois da aula. Foi também aos 15 que ele entrou de penetra na festa de 15 anos de uma guria que tinha acabado de se mudar ali pra frente da praça. Naquele mesmo dia um amigo bebeu demais, e ele saiu da festa antes da menina fazer a sua entrada.

Ansiosa pra festa de 15 anos, ela procurou pelo vestido em todas as lojas da zona norte. Na última loja, cuja dona era mãe de um dos meninos que jogavam futebol em frente a sua casa, ela encontrou o vestido mais lindo de Porto Alegre! Pena que o seu melhor amigo exagerou na bebida e teve que ser levado pra casa antes que a visse com o vestido.

Ela festejou como nunca quando o melhor amigo passou no vestibular pra jornalismo. Ele, na noite em que iria comemorar o seu ingresso na faculdade, ficou trancado no trânsito dentro de um ônibus super-lotado, o que o deixou com um atraso de mais de uma hora. A festa dela acabou mais cedo, porque os pais ainda não aceitavam muito bem essa história de sair com os amigos pros bares, e antes que todos os bixos chegassem, teve que ir embora.

Naquele domingo, as amigas convidaram pro bom e velho chimarrão na praça, e dessa vez, ela preferiu ficar em casa pra curtir um pouco a preguiça. Ele recebeu também um convite pro chimarrão na velha praça do futebol. Além disso, umas amigas estariam lá, e disseram que uma delas tinha tudo a ver com ele. Infelizmente, eles nunca se encontraram.